As duas pessoas, altas, de olhos claros e pele vermelha, estavam a apanhar banhos de um sol primaveril. Aproximei-me e disse seguro: “Sorry, can you take us a picture?”.
Um pensamento como ato reflexo pode concluir que a interação descrita era desnecessária. Bastaria estar munido da ferramenta certa e não teria de pedir ajuda para ter uma foto minha na Foz do Douro naquela tarde. Essa ferramenta, um bastão, chamam-lhe, pode fazer-nos crer que somos autossuficientes. Talvez nenhum objeto exprima de forma tão paradigmática a ilusão de que não dependemos de ninguém. Será o exemplo acabado do tempo de individualismos que vivemos.
A expressão do individualismo não se limita às condutas individuais. Talvez paradoxalmente, tal resulta do próprio Estado. Nas últimas décadas, assistimos o país, através dos sucessivos governos, a apostar em quilómetros obscenos de autoestrada, em detrimento dos transportes coletivos, em particular do comboio. O transporte que melhor serve uma comunidade, e aquele que subsistirá no futuro, é o transporte coletivo, não o individual. Apesar disto, alimentamos um snobismo ignorante e encapotado, que desdenha o transporte coletivo. Na Europa, só Portugal e Grécia fecharam linhas férreas nos últimos anos. De todo o modo, reconheça-se – ao utilizarmos o transporte coletivo, não deixamos o nosso individualismo na plataforma. Reduzimo-nos ao ecrã, isolamo-nos com os auscultadores.
Fico satisfeito por ter interagido com o senhor queimado do sol. Se me tivesse achado autossuficiente, teria perdido a resposta dele, que me deixou tão surpreendido como divertido, ao dizer com boa pronúncia portuense “Olha, são estrangeiros”.
