Abr 22

O terrorismo e o fim da liberdade

É tentadora. Mas, é uma ilusão. Perigosa. A ideia de que é possível evitar absolutamente todos os “ataques terroristas” de que a Europa tem sido alvo.

A investigação criminal, nomeadamente a que procura desmantelar redes criminosas, é fundamental e tem conseguido, de forma geral, assegurar que é possível vivermos em paz e em segurança. É verdade que continuamos a ter gangues criminosos, dedicados à violência ou ao crime, e organizações terroristas, cuja atividade não se consegue eliminar. Mas seria injusto não reconhecer que as autoridades policiais e de investigação criminal conseguem combater grande parte da atividade daqueles grupos.
Quanto ao terrorismo com fundamento religioso, em particular, é fundamental (além de assegura que a ação externa dos aliados não promove a radicalização) encontrar e debelar focos de extremismo, fontes de informação com apologia ao terrorismo, vigiar aqueles que justificadamente sejam suspeitos de ter atividade criminosa.

Um problema particular surge quando os “ataques terroristas” – como os recentes de Londres, Paris ou Nice – são perpetrados por pessoas isoladas (e não grupos terroristas), com um histórico de violência (mas, não um histórico de terrorismo) e sem atividade religiosa (muitos dos atacantes não eram devotos, não tinham atividade religiosa e, alguns deles, tinham mesmo comportamentos contra a sua religião, como o consumo de álcool). Quando tudo o que é necessário é um veículo alugado ou uma faca, como podemos evitar que todo e qualquer ataque exista? Não podemos. É importante que nos mentalizemos que não podemos. Podemos e devemos reduzir ao máximo tais ataques. Mas, vista a sua natureza, devemos aceitar que não é possível reduzi-los a zero.

Não aceitar esta limitação de um Estado de Direito, é abrir o caminho a que tudo seja admissível para parar estes ataques. Isto é, só afirmando a segurança como valor absoluto, admitindo que atropele outros valores, como a liberdade e a dignidade da pessoa humana. Pois, só haveria uma forma do Estado ser capaz de evitar todo e qualquer ataque – vigiando cada um de nós, cada veículo que alugamos, cada página da Internet que visitamos. Isto é, vivendo num Estado polícia. E, isto não podemos aceitar.
Acabar em absoluto com este “terrorismo”, que é básico, imprevisível e realizado com poucos meios, é uma ilusão tentadora. Mas, aceitá-la seria aceitar o fim da nossa liberdade.