Abr 10

O inimigo

O inimigo

Com o conforto de quem nasceu já depois de terminar a Guerra colonial e não se lembra da Guerra Fria, sempre vi a guerra como algo que acontece à distância. Recordo, vagamente, algumas guerras e tenho presentes outras. De qualquer modo, na memória da minha geração, a guerra nunca se aproximou mais do que dos Balcãs. Se não apelarmos aos livros de História, podemos cair na tentação de compreender a Europa como sendo imune à guerra; e, assumir que a liberdade é um facto consumado.
Talvez por estar perto de cair em tal tentação, de uma viagem pela Europa, de mochila às costas e longe de qualquer guerra, ficou-me na memória a estátua de um presidente norte-americano acompanhada de uma citação. Esta referia que a liberdade não nos pertence verdadeiramente e que cada geração terá de lutar pela sua própria liberdade.

O atual conflito entre a Ucrânia e Rússia, como outros momentos de tensão, pode fazer abalar a convicção sobre a imunidade da Europa à guerra. Contudo, há uma imunidade que temo, ainda mais, que se mostre ilusória.
A ideia de Europa que hoje muitos de nós partilhamos, e na qual acredito com toda a convicção, foi sendo construída contra todas as probabilidades e dificuldades. Sucede que, como noutros momentos históricos em que as populações enfrentam dificuldades, tendemos a questionar o ‘status quo’. Tal é positivo, já que o conformismo é inimigo da construção democrática. O problema surge quando identificamos o inimigo com demasiada leveza.

Numa conversa recente, fiquei perplexo com as reservas de um emigrante português face à imigração no seu país de destino. Confrontado com a contradição, aquele defendeu que a imigração dele foi diferente da atual – ele foi para trabalhar; hoje, os imigrantes chegam para usufruir dos benefícios sociais. O mesmo argumento moveu britânicos a imporem barreiras aos imigrantes da ‘nova’ Europa de leste. Um mesmo sentimento levou a extrema direita, no país da “liberdade, igualdade e fraternidade”, a ter um resultado que a todos deve alertar.
Os dados mostram que os imigrantes, afinal, não ‘abusam’ do estado social. Mas, a retórica vai distraindo-nos e voltando-nos contra o que construímos. O inimigo não está aí. É mais fácil combater um inimigo que se conhece do que aquele que não se conhece. Mas, não podemos dar-nos ao luxo de o identificarmos mal.

Mais do que a Rússia às portas da Europa, deve assustar a facilidade com que os Europeus identificam o inimigo, sem se aperceberem que tal atenta contra a própria ideia de Europa. A retórica xenófoba que cada vez mais assola a Europa é sinónimo de que estamos a perder a batalha. Parece que caímos na tentação e não percebemos que temos de lutar pela nossa liberdade.