Jun 24

Brexit: Dias tristes. Dias preocupantes.

Dias tristes. Pior, dias preocupantes.

Não me refiro às consequências económicas e financeiras para a Europa, o Reino Unido e o mundo. Nem à autofagia a que se votou o Reino Unido – ou melhor, a Inglaterra, que se tornará irrelevante no contexto mundial (é o fim de um império que foi global e de uma União que dura há mais de 300 anos – a Escócia, que votou pela manutenção, irá conseguir a independência e, desejavelmente, a manutenção na União Europeia; a Irlanda do Norte, que também votou pela manutenção, verá regressar os dias, política, social e religiosamente, conturbados).

Estes são dias tristes e preocupantes devido ao voto britânico ser lido e aproveitado como uma forma de destruir a Europa. Aqueles que o pretendem fazer encontram-se na extrema-direita (felizmente, sem expressão em Portugal; mas, com grande relevância em diversos países como Hungria, Holanda, Dinamarca, França, Suécia…) e na extrema-esquerda (em Portugal, corporizada pelo PCP e pelo BE).
O que aqueles procuram questionar não é só a União Europeia, enquanto conjunto de instituições. O que aqueles procuram destruir é a própria ideia de Europa. Esse projeto politicamente ambicioso e axiologicamente invejável.

A União Europeia cometeu a sua parte de erros nesta caminhada de mais de meio século. A burocracia, a transparência, a perceção de democracia, são exemplos de que nem tudo correu pelo melhor. Contudo, estamos a falar do projeto político democrático mais ambicioso da História, que conseguiu, entre outras coisas, assegurar a paz num continente reiteradamente devastado pela guerra. Também foi este projeto político que foi capaz de construir o Estado-providência de referência no mundo e que nunca foi atingido por qualquer outro regime e que era uma miragem longínqua antes da (atual) União Europeia.
Nunca como agora fez tanto sentido entender como dicotomia relevante para a discussão do nosso futuro em democracia a dicotomia assente no europeísmo ou falta dele. Isto em detrimento da clássica (e, ultrapassada) dicotomia esquerda-direita. Defender a Europa, enquanto projeto político e social, significa defender os direitos humanos acima de tudo. Significa defender o Estado-providência, a liberdade, a cooperação, a solidariedade. Lutar pela Europa é não dar espaço àqueles que defendem os regimes políticos responsáveis pelos episódios mais negros do continente durante o século XX. Defender a Europa é acreditar na união de povos muito distintos, capazes de ultrapassar as suas diferenças em prol do bem comum.

Não obstante as dificuldades tristes e preocupantes que se aproximam, viva a Europa, viva a União Europeia.